sábado, 3 de abril de 2010

A vida é dura, mas a praia é mole



O papo começou logo após uma desilusão amorosa. Não foi a primeira e, de certo, não seria a última. Mas uma conversa com pessoas queridas é sempre bom. No fim, sem muitas discussões, meu pai, sua mulher e eu concluímos: vão-se os anéis, ficam os dedos.

Daí em diante, o surfe entrou na pauta. As cicatrizes invisíveis criadas por um pé na bunda são como as que eu tenho na cara, graças a dois episódios infelizes em bons dias de surfe. Não na aparência, mas na maneira como eu absorvo as lições que ficam... Talvez o surfe esteja na minha vida do mesmo jeito que os amores que tenho ou tive. E o que se pode tirar disso tudo é que maus momentos não podem nunca resultarem em desistência. Nunca! Como diz a turma de Floripa: a vida é dura, mas a praia é mole.

Não vou entrar em detalhes sobre meus relacionamentos, mas posso contar como as cicatrizes na minha cara apareceram. Nem sempre a culpa é sua, mas na primeira vez, foi e acho que nessas você aprende melhor. Eu era novo, tinha uns 15, 16 anos. Surfava muito mal, mas corria atrás do meu. E, para conseguir chegar na praia nesse dia, eu precisei convencer minha mãe a me levar. Ela não estava achando aquilo nem um pouco legal. Eu queria ir na Joatinga, uma praia linda, com boas ondas, um visual maravilhoso, um astral bem animado e a mulherada na areia e dentro d´água. Mas isso tudo tem um preço e o acesso à praia não é dos mais simples.

Chegando lá, meu amigo e eu descemos a pirambeira correndo, sem pensar muito e nos jogamos na água direto da pedra. Só deu tempo de ouvir minha mãe resmungando alguma coisa para eu tomar cuidado. Boca de mãe é f... A primeira meia hora foi muito gostosa. Altas ondas e pura diversão. Como um início de namoro, onde tudo está sempre bom. Só que no primeiro vacilo, quando tentei fazer um movimento mais arriscado, que eu não sabia, acabei tomando uma pranchada. O buraco aberto embaixo da minha boca nos obrigou a ir para o hospital. A lição que ficou: saiba a hora certa de arriscar ou seria, escute sempre o que sua mãe diz?

A segunda cicatriz veio anos depois, alguns amores depois. Dessa vez, a culpa não foi minha, mas quem aprendeu, com certeza fui eu. E como diz um amigo meu, nós somos responsáveis por qualquer coisa que nos aconteça. É uma lance budista, mas dá para entender...

Foi na manhã do meu primeiro campeonato, no Leblon. O mar estava legal e eu resolvi dar uma caída bem cedo, para aquecer. As séries vinham varrendo, como um daqueles amores repentinos, que nos deixam meio sem saber o que fazer. Eu entrei meio assustado, mas consegui me divertir no começo. Até que uma onda subiu lá atrás e todo mundo saiu remando tentando passar antes do pior. Não deu outra, um cara que estava na minha frente soltou a prancha e ela acabou batendo na minha cara. Mais um buraco, agora no supercílio. O maluco nem viu e eu fui obrigado a correr novamente para o hospital. Mais uns pontinhos, mais uma cicatriz e uma nova lição. Nem sempre você está no controle e os outros também influenciam muito na sua vida. Seja dentro ou fora d´água.

O melhor disso tudo é que eu não perdi as esperanças. Continuo amando, surfando e vivendo cada momento, um pouco mais atento. E, plageando o grande poeta Vinícius, de uma maneira que eu possa dizer depois que que não foram imortais, posto que eram chama. Mas foram infinitos enquanto duraram. E continuam me fazendo crescer...

Um comentário:

rafa_caco disse...

surfe e relacionamentos analogia interessante. Espero que no surfe esteja se saindo melhor.rs. Muito maneira a crônica caquin.